Construção do conhecimento agroecológico: síntese de dez experiências desenvolvidas por organizações vinculadas à Articulação Nacional da Agroecologia
Ailton Dias dos Santos
Junho de 2007
1. Introdução
O termo construção do conhecimento agroecológico vem sendo cada vez mais usado pelas organizações e movimentos sociais que compõem a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). Ele se refere a processos de elaboração de novos saberes sobre a Agroecologia a partir dos conhecimentos tradicionais dos agricultores e agricultoras e da sua interação com o saber técnico-acadêmico.
O termo também representa um contraponto conceitual aos modelos convencionais de pesquisa agrícola e assistência técnica e extensão rural (Ater). Nesse sentido, aponta para a noção de que o desafio atual das organizações de promoção da Agroecologia não é o de prestar uma assistência às famílias que adotam ou querem adotar esse modelo de produção e nem tampouco o de fazer a extensão ou difusão dos conhecimentos gerados nas instituições de pesquisa. Isso explica, em parte, o desconforto com o termo Ater, embora se reconheça o papel fundamental e a importância estratégica dos órgãos oficiais do setor.
Ao buscar alternativas metodológicas aos modelos convencionais de Ater, as organizações da ANA percebem que o verdadeiro desafio está na construção do saber agroecológico por meio da interação entre os conhecimentos tradicional e técnicoacadêmico. Nessa abordagem, o conhecimento resulta de processos que envolvem agentes diferentes que atuam num dado contexto social, político e econômico. Assumese que o conhecimento agroecológico não está acabado e pronto para ser difundido. Ele está em permanente construção, o que implica a escolha de métodos, procedimentos e práticas pedagógicas que facilitem a emergência de novos saberes.
A realização do seminário Construção do Conhecimento Agroecológico, durante o II Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), representou uma oportunidade ímpar para se conhecer e refletir sobre os diferentes caminhos que as organizações da ANA estão trilhando para desenvolver esses novos saberes agroecológicos.
As experiências apresentadas e discutidas neste livro são uma amostra da grande diversidade de processos de construção do conhecimento agroecológico em curso nas várias regiões do Brasil. Para efeito de síntese, é possível agruparmos essas experiências em algumas categorias apresentadas a seguir, de acordo com os tipos de processos, estratégia metodológica ou arranjo institucional adotados3.
• Nas duas experiências de promoção da agricultura em bairros periféricos das cidades de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro, o enfoque agroecológico tradicionalmente utilizado em ações no meio rural sofre uma adaptação em função do contexto específico do meio urbano.
• Seis experiências têm como estratégia a experimentação e formação de agricultores - inovadores visando a conversão agroecológica de sistemas de produção.
• Pelos menos seis experiências utilizaram as visitas ou intercâmbios de experiências como parte de um processo de formação de agricultores ou de troca de saberes e conhecimentos.
• Uma das experiências é conduzida por uma organização de agricultores, sendo o trabalho de geração e disseminação de conhecimento coordenado e realizado pelas próprias lideranças locais, com o apoio de uma equipe técnica.
O objetivo desta síntese é apresentar interfaces, questões comuns, similaridades e discrepâncias entre as várias abordagens utilizadas pelas organizações nesses processos. Não se trata de avaliar seus procedimentos e práticas metodológicas, mas sim de identificar aspectos relevantes para o debate a partir de três eixos principais:
• Manifestação dos conceitos da Agroecologia nas abordagens metodológicas empregadas pelas organizações.
• Papéis das organizações dos agricultores no processo de construção do conhecimento agroecológico.
• Articulações realizadas entre os saberes dos agricultores e agricultoras e o conhecimento acadêmico-científico.
Esses três eixos de análise estavam contidos no Termo de Referência que orientou as sistematizações de experiências.
2. O enfoque agroecológico e a evolução das práticas metodológicas adotadas
Segundo o Termo de Referência, o papel das organizações que atuam na promoção da Agroecologia é:
(...) dinamizar processos sociais de inovação agroecológica que permitam a vinculação entre o corpo de conhecimentos dos agricultores sobre o manejo dos seus agroecossistemas e o conhecimento científico acadêmico. Esses processos locais são espaços de interatividade social voltados não só para o avanço da Agroecologia em sua dimensão técnica, mas também em sua dimensão sociopolítica (GT-CCA / ANA, 2006).
Essa formulação reflete o momento atual do movimento agroecológico no Brasil, marcado pela percepção mais clara de que o avanço da Agroecologia está vinculado a processos sociopolíticos sobre os quais as organizações devem atuar.
A figura 1 ilustra as fases da evolução gradual dos meios e metodologias de intervenção das organizações de promoção da Agroecologia com vistas à ampliação do enfoque agroecológico enquanto estratégia de desenvolvimento.

Na última década, organizações do campo agroecológico operaram mudanças em suas abordagens metodológicas, passando da primeira para a segunda fase. No momento atual, há o desafio de se passar da segunda para a terceira fase. Por se tratar de um processo dinâmico, essas abordagens evoluem à medida que são superados e reinventados os modelos de intervenção das organizações.
Ao analisarmos os textos das sistematizações, é possível visualizar uma diversidade de caminhos e de escolhas feitas pelas organizações na promoção da Agroecologia que, em maior ou menor grau, confirmam a tendência enunciada na figura 1. Ao mesmo tempo, as sistematizações apresentadas expressam claramente os dilemas envolvidos nessa transformação. Como fazer da Agroecologia um processo social de mudança e, portanto, de construção de novos saberes e novas práticas? Como superar o modelo de intervenção vertical, pautado na transferência de saberes (dos técnicos para os agricultores ou de agricultores mais qualificados para os menos qualificados)?
As sistematizações oferecem ainda pistas importantes que podem ajudar a responder essas questões. Parece evidente que as organizações estão em busca de modelos de intervenção onde o fluxo de conhecimento ocorra de forma mais horizontalizada. Então a análise das sistematizações deve indicar não apenas o quanto as organizações estão mais próximas ou mais distantes de um modelo desse tipo e sim os aprendizados que elas oferecem para a construção desse modelo.
3. Refletindo sobre o modelo de intervenção das organizações
Alguns elementos das experiências apresentadas, identificados pelas próprias organizações promotoras, justificam a necessidade de mudança nos modelos de intervenção. Alguns exemplos:
• A construção do conhecimento a partir dos diagnósticos da realidade levou as organizações a priorizar determinados problemas ou temas a serem trabalhados levando, muitas vezes, a uma especialização da intervenção. Passou-se, portanto, de um enfoque mais tecnológico (primeira fase) para uma abordagem mais temática. Porém, ao se trabalhar no sentido da especialização temática (café orgânico, sistemas agroflorestais, por exemplo) há um evidente risco de se perder a dimensão sistêmica que o saber agroecológico deve ter, subvertendo os parâmetros de eqüidade social, diversificação produtiva, resiliência, etc. Esse risco foi identificado por várias organizações, que perceberam a necessidade de mudar seu modelo de intervenção – como o Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata (CTA-ZM) e o Serviço de Assessoria às Organizações Populares Rurais (Sasop), por exemplo –, levando-as inclusive a reformular suas estratégias de construção do conhecimento.
• A especialização temática em algumas experiências está diretamente ligada a uma lógica de intervenção voltada para o mercado. Em alguns casos, os grupos de agricultores envolvidos nos processos de construção do conhecimento estiveram também engajados na criação de organizações orientadas para a comercialização, a exemplo de cooperativas. Em que pese a importância dessas organizações, há o risco de que a lógica de mercado (que envolve aspectos econômicos, administrativos, financeiros, etc.) prevaleça sobre as dimensões sistêmicas da Agroecologia.
• A intervenção do tipo temática, mesmo quando originada de processos de diagnóstico da realidade, pode dar origem a rotinas sem reflexão. Nesses casos, as pessoas das organizações dedicam a maior parte de seu tempo na execução das atividades com raras oportunidades para refletir e sistematizar seus aprendizados e lições. Quando as organizações têm dificuldade de parar para refletir o conhecimento se estanca, assim como as práticas metodológicas. Nos processos de construção coletiva do conhecimento, a reflexão assume um papel crucial. Todas as organizações que passaram por mudanças no seu enfoque em direção a modelos mais horizontais de construção do conhecimento o fizeram a partir de um rico processo de debate interno.
Os elementos apresentados suscitam o questionamento de como tem se dado o processo de organização e circulação do conhecimento no âmbito de cada experiência e, portanto, de cada contexto social específico. Como as organizações estão organizando e difundindo conhecimentos? A partir de uma orientação de mercado? A partir de uma tecnologia considerada prioritária? A partir de problemas identificados no diagnóstico da realidade? A partir de uma cadeia produtiva ou produto? Qual a distância entre esses formatos de organização do conhecimento e os princípios da Agroecologia?
Aqui será importante refletir sobre o papel das sistematizações das experiências das pessoas e grupos e sua relação com a geração de novos saberes. As sistematizações podem ocorrer segundo lógicas verticais ou horizontais de geração e disseminação do conhecimento. Nas experiências analisadas há importantes pistas que podem subsidiar a formulação de novos modelos de intervenção e construção do conhecimento de maneira horizontalizada. Para tanto, há escolhas a serem feitas: o que sistematizar? Por que sistematizar? Com que objetivo?
Outra pista importante apontada por algumas organizações tem a ver com processos de comunicação social que possam tornar públicos tanto os conhecimentos gerados quanto os meios para acessá-los. Várias organizações relatam que estão elaborando boletins, informes, programas de rádio e outros instrumentos para a difusão ampla de saberes e práticas. Por fim, um elemento que praticamente não foi abordado nas experiências, mas que parece estar intrínseco às mesmas, é o sentido ético da construção do conhecimento. Por ser uma fonte de poder, o livre acesso das pessoas ao conhecimento implica também a distribuição de poder na sociedade.
Persistência do modelo difusionista
Uma das maiores dificuldades metodológicas observada nos relatos das experiências diz respeito à permanência do enfoque difusionista, mesmo em iniciativas de inspiração agroecológica. Ao negar o modelo produtivo da chamada Revolução Verde, várias organizações procuraram alternativas tecnológicas que pudessem viabilizar os sistemas produtivos da agricultura familiar em bases sustentáveis. Mas, ao esboçar os métodos que as levariam a um novo modelo produtivo, essas organizações recorreram aos mesmos procedimentos de difusão de tecnologias enraizados na formação acadêmica da maioria dos técnicos de ciências agrárias: instalação de experimentos, áreas demonstrativas e formação de agricultores–multiplicadores (inovadores).
Assim, embora empregando uma estratégia de mudança tecnológica, o saber permanecia como prerrogativa dos técnicos que o repassavam a agricultores com potencial de atuação como multiplicadores para que estes fizessem a irradiação, difusão ou o convencimento de outros agricultores para a adoção das novas práticas. Nesse caso, o fluxo do conhecimento mantinha o mesmo modelo difusionista de Revolução Verde, ou seja:

Em algumas experiências apresentadas, a intervenção se fundamentava inicialmente na formação de grupos de agricultores–experimentadores que ficariam responsáveis pela implantação de módulos de sistemas agroflorestais (SAFs), sendo esta a proposta que as entidades de assessoria pretendiam difundir. No entanto, com o passar do tempo e em função da avaliação dos próprios agricultores, as experimentações deixaram de acontecer no âmbito dos módulos ou áreas demonstrativas e passou-se a trabalhar na propriedade como um todo e de uma maneira mais sistêmica. Esse é um exemplo de como os agricultores e agricultoras podem desempenhar um papel-chave nas mudanças de enfoque.
Foram os próprios agricultores que romperam as fronteiras das ADs (áreas demonstrativas), ampliando e aperfeiçoando o processo de experimentação. Novas experiências foram desenvolvidas a partir dos princípios agroecológicos apropriados pelos agricultores nas áreas de cacau, de guaraná, nos quintais, nas áreas financiadas, etc. As práticas agroecológicas foram sendo adaptadas às condições de solo, aos cultivos locais, à disponibilidade de mão-de-obra e às demandas de cada família. (SASOP, 2006)
A reformulação da estratégia, incorporando a participação autônoma dos grupos de agricultores, leva a um fluxo de conhecimentos de caráter bilateral e pautado no diálogo entre agricultores e técnicos.

O intercâmbio entre grupos de agricultores também tem sido uma estratégia amplamente utilizada, como demonstram as experiências em tela. Nesses casos, busca-se o fortalecimento da relação agricultor-agricultor no processo de geração e aplicação de novos conhecimentos.

Porém, muitas vezes esses processos de intercâmbio parecem se restringir a visitas técnicas, não estando claro quais são os instrumentos metodológicos que as entidades têm utilizado para promover esses eventos formativos. Nessa perspectiva, abriu-se um importante campo de debate sobre como aperfeiçoar e qualificar os fluxos de comunicação entre agricultores(as), visando à geração e disseminação de novos conhecimentos, bem como sobre o papel das organizações de assessoria nesses processos.
O lugar dos(as) agricultores(as) nos modelos de intervenção
Pode-se observar que na maioria das experiências apresentadas as organizações têm feito investimentos importantes em processos de formação ou assessoria a agricultores e agricultoras enquanto ação estratégica para a geração e difusão do conhecimento agroecológico. A análise desses processos permite identificar tanto a forma de organização do conhecimento quanto o modelo de intervenção das organizações em termos de promoção da Agroecologia. Para efeito de síntese desses processos formativos, destacamos alguns elementos para análise e debate:
O primeiro aspecto importante tem a ver com o público-alvo dos processos de assessoria e/ou formação. Os relatos mostram que existe uma variedade de critérios para a escolha desse público ou das pessoas que tomarão parte das ações de geração e difusão do conhecimento.
Algumas entidades de assessoria têm como público-alvo o quadro de associados dos STRs e organizações a eles vinculadas, o que reflete as relações estabelecidas na própria origem daquelas entidades. Ou seja, a participação nos sindicatos ou organizações adjacentes é um critério básico para a escolha das pessoas que passarão pelos processos formativos. Isso pode se dar pela manifestação espontânea de grupos de agricultores quanto ao seu interesse em participar das iniciativas agroecológicas ou por meio de critérios de seleção previamente definidos entre as organizações representativas e as equipes de assessoria técnica.
Houve, porém, casos em que as próprias iniciativas dos grupos de agricultores agroecológicos deram origem a organizações do tipo cooperativista, no entorno das quais passou a se organizar todo o processo de construção e difusão do conhecimento, além, é claro, da estruturação dos canais de comercialização. O público-alvo aqui é formado por famílias envolvidas mais diretamente nas cooperativas, muito embora as mesmas tenham se originado do próprio movimento sindical, com o qual mantêm vínculos políticos.
Considerados os fatores acima, algumas entidades tendem também a adotar um critério de representatividade territorial para a escolha do público- alvo dos processos formativos e/ou de experimentação. Dessa forma, procura-se garantir uma atuação regionalizada e que considera tanto a área de abrangência da ação das organizações quanto os processos de articulação em torno do desenvolvimento dos territórios. Assim, são definidas algumas pessoas ou famílias por municípios e/ou comunidades para que atuem como ponto focal dos processos de geração e disseminação do conhecimento
em nível local.
Com relação às experiências de agricultura urbana, a definição do público prioritário parece se pautar mais nas redes de relações que se estabelecem entre organizações de bairro (formais e informais), igrejas, instituições religiosas, pastorais e entidades de assistência social.
O segundo aspecto diz respeito à expectativa das organizações promotoras quanto ao trabalho a ser realizado pelas pessoas capacitadas em seu local de origem e/ou junto ao seu grupo social. Em geral, espera-se que essas pessoas cumpram uma função específica que envolve, além da experimentação em busca de alternativas, a difusão dos conhecimentos sedimentados nos processos formativos. Essa função de promotores locais da Agroecologia pode assumir diversas denominações, tais como:
• experimentadores e monitores agroecológicos;
• mobilizadores locais;
• monitores;
• educadoras e assessoras comunitárias;
• agricultores-multiplicadores;
• agricultores-experimentadores;
• monitoras de segurança alimentar e nutricional (SAN);
• agricultores-técnicos.
O terceiro aspecto tem a ver com os dois anteriores e diz respeito à construção de uma identidade de agricultor(a)-experimentador(a) e à maneira pela qual este ou esta operacionaliza os princípios e valores da Agroecologia em sua família, comunidade, município ou grupo social. Embora essa identidade seja valorizada e trabalhada nos modelos de intervenção das organizações, em muitos casos os parâmetros de representação e da função a ser exercida pelos(as) agricultores(a) tendem a se sobrepor, assumindo lugar central nos projetos.
Por fim, no caso da Associação dos Produtores Alternativos de Rondônia (APA-RO), o processo de construção do conhecimento se deu no interior de uma organização de agricultores familiares com critérios próprios para a escolha dos produtores-técnicos, que assumiram a função de assessoria junto a outros grupos interessados em adotar práticas agroecológicas.
Os elementos levantados acima permitem visualizar os vários modelos de organização e disseminação do conhecimento agroecológico e o papel específico exercido pelos agricultores e agricultoras dentro de cada modelo. A partir desses aspectos, podemos identificar algumas questões problematizadoras:
O risco de diferenciação social
Há fortes evidências de que os(as) agricultores(as) envolvidos(as) nos processos de geração e difusão de conhecimentos aqui analisados têm contribuído para o avanço das práticas agroecológicas em suas localidades. No entanto, alguns relatos alertam para o risco de se criar uma diferenciação social nas comunidades ou municípios na medida em que, dentro de um grupo social mais amplo, somente aqueles escolhidos segundo critérios predefinidos têm acesso a novas informações, contatos e conhecimentos, sem necessariamente transmiti-los com eficácia a um número maior de pessoas. Isso traz à tona o velho problema da relação entre as lideranças e sua base social e levanta a seguinte questão: será que com isso não se estaria favorecendo a formação de uma elite local detentora de informações, conhecimentos e, portanto, de poder?
Agricultores e agricultoras como prestadores de serviços
Ao se atribuir a agricultores–inovadores ou experimentadores a função de difusores de saberes e práticas agroecológicas, os mesmos são elevados à categoria de prestadores de serviços. À primeira vista essa estratégia pode parecer uma boa alternativa para as organizações de assessoria que, quase sempre, se deparam com escassez de recursos e pessoal, ao mesmo tempo em que procuram ampliar os impactos das suas intervenções. Mas atribuir novas funções àqueles agricultores implica em equacionar questões complexas. A implementação de arranjos desse tipo traz consigo a necessidade de remunerar os agricultores pelos serviços prestados, ou seja, pelo tempo que eles dedicam às ações de difusão ou assessoria a outros grupos. Além disso, há o risco de perda de vínculos orgânicos entre o agricultor assessor e o seu grupo social, ocasionada pela diferenciação social, conforme mencionado acima. Como remunerar de maneira justa sem contribuir para essa diferenciação? Como preservar o parâmetro da eqüidade nos processos de construção e difusão do conhecimento agroecológico?
Verticalização x horizontalização do fluxo de conhecimento
As organizações de assessoria têm dado passos importantes na direção de um modelo de intervenção mais horizontal e pautado na relação agricultor- agricultor. Contudo, a adoção de critérios de representatividade territorial para a escolha das pessoas e a expectativa quanto à função a ser exercida por agricultores no processo de difusão tendem a criar uma estrutura verticalizada de organização e difusão do conhecimento. Isso demonstra que a relação agricultor-agricultor não é, necessariamente, de natureza horizontal. Então, como organizar a geração do conhecimento segundo parâmetros mais horizontais e menos verticais em consonância com os princípios da Agroecologia?
A própria sistematização das experiências parece oferecer algumas pistas para responder essa questão. Em que pesem os dilemas relacionados acima, é importante reconhecer que muitas organizações de assessoria têm procurado orientar sua intervenção considerando os processos sociopolíticos que ocorrem em territórios definidos.
A estruturação de programas de desenvolvimento local e/ou territorial tem se tornado um instrumento comum a várias organizações. Nesse caso, há um desafio latente de se organizar o processo de construção e disseminação do conhecimento agroecológico dentro dos próprios programas de desenvolvimento de base territorial e não como estratégias metodológicas à parte e atendendo a públicos específicos.
Os processos sociopolíticos de articulação, construção coletiva de propostas, planejamento e implementação de ações parecem ser providenciais em termos de construção e disseminação do conhecimento agroecológico. Aqui, a identidade de agricultor-experimentador ou agricultor agroecológico deve ter um papel determinante. Fortalecer a sua rede de relações com a coletividade de famílias e atores sociais do território pode ser mais importante do que atribuir aos mesmos uma função de difusores do conhecimento.
Saber tradicional como base do processo de reflexão
Na maior parte das experiências apresentadas os saberes tradicionais dos agricultores foram a principal fonte de informações para o processo de (re)elaboração de novos conhecimentos. Mas essa percepção não se deu de forma imediata. Várias iniciativas foram inicialmente desenhadas seguindo os pressupostos das áreas demonstrativas, que tinham como objetivo difundir conhecimentos oriundos dos técnicos das entidades de apoio e não dos próprios agricultores. Alguns relatos atestam que foi necessária uma avaliação crítica dessa estratégia para que os agricultores pudessem se inserir no processo não simplesmente como receptores e sim como provedores de conhecimentos a serem re-trabalhados pelo coletivo.
Na experiência relatada pelo Capa-Erexim, por exemplo, foi necessário não apenas considerar os saberes dos agricultores, mas também resgatar aqueles saberes que já haviam sido esquecidos e que poderiam se converter em novas alternativas no processo de transição agroecológica.
Herança cultural como fonte de saberes
A herança cultural dos agricultores pode constituir uma valiosa fonte de saber. Esse é um ponto de convergência entre as duas experiências de agricultura urbana apresentadas. Em ambos os casos, as pessoas que praticam agricultura em ambientes de urbanização intensa recorrem sempre a um referencial dado por uma história de vínculos com a agricultura. Essas referências não são apenas técnicas ou relacionadas aos conhecimentos e habilidades necessários às práticas agrícolas, mas remetem também a aspectos subjetivos ou simbólicos, relacionados com a identidade das pessoas e com seus valores. Estruturar os processos de construção do conhecimento a partir desse universo cultural dos grupos humanos é um dos maiores desafios e toca diretamente na questão da identidade anteriormente citada.
Talvez por se tratarem de casos extremos (maior distância do meio rural), as experiências de agricultura urbana situam essa herança cultural como uma importante fonte de saber. Esse elemento também está presente em várias outras experiências, ainda que de maneira menos explícita. Uma questão que emerge é: como as práticas metodológicas voltadas para a construção do conhecimento podem acessar esse patrimônio sociocultural enquanto fonte de saberes que podem ser re-significados no contexto das intervenções?
Incorporação da abordagem de gênero
A maioria das experiências apresentadas expressa uma preocupação com a busca pela eqüidade de gênero nos processos de construção do conhecimento, mas os diferentes graus de aprofundamento do tema nos documentos não nos permitem fazer generalizações. Mesmo assim, é possível apontar algumas tendências mais marcantes:
• Alguns relatos demonstram que as organizações promotoras das experiências vêm realizando importantes debates internos sobre a adoção de abordagens de gênero em suas práticas e estratégias metodológicas. O efeito mais direto desse debate é a busca pela eqüidade de gênero nos processos formativos, na experimentação e difusão do conhecimento. Nesses casos, há uma ênfase na criação de condições para a participação mais efetiva das mulheres. Em alguns casos, procura-se o envolvimento tanto de mulheres quanto de jovens (gênero e geração).
• Em outros relatos, a participação das mulheres é contemplada, mas está mais ligada a referências identitárias. Por exemplo, em algumas experiências, há evidências claras de que o envolvimento de mulheres se dá em estratégias relacionadas à segurança alimentar e nutricional (SAN), o que parece decorrer de uma preocupação ou identificação prévia dos grupos de mulheres com esse tema específico. Podemos encontrar essas referências em experiências que ocorrem em diferentes contextos, como as do Sasop, da Rede de Intercâmbio de Tecnologias Alternativas de Belo Horizonte (Rede-BH) e da APA-RO. Essa constatação nos leva a refletir se dentro do movimento agroecológico haveria nichos específicos onde a participação de mulheres ocorra de maneira mais efetiva. Seria então o tema segurança alimentar e nutricional um catalisador da participação feminina nos processos?
Parte das experiências não apresenta evidências diretas acerca de estratégias promovidas pelas organizações com relação à abordagem de gênero. Isso não significa, no entanto, que no dia-a-dia das organizações essa perspectiva não esteja presente.
Agroecologia e segurança alimentar
As duas experiências de agricultura urbana possuem como eixo estratégico de suas ações a segurança alimentar e nutricional (SAN), também presente na intervenção do Sasop e de várias outras organizações, embora muitas vezes não de maneira direta. No caso da experiência da Rede-BH, a formação de monitoras em SAN trouxe à tona a questão da função das pessoas no âmbito das políticas públicas voltadas para a segurança alimentar. Aqui aparecem, mais uma vez, a necessidade de remunerar os monitores pelos serviços prestados, o dilema da profissionalização, entre outros.
4. O papel das organizações de produtores e produtoras na condução dos processos de construção do conhecimento
Praticamente todas as experiências apresentadas expressam claramente o objetivo ou a preocupação de fortalecer as organizações dos(as) próprios(as) agricultores(as). No entanto, fica claro que existe, dentro do movimento agroecológico, uma grande diversidade de caminhos e meios para se atingir esse objetivo. Alguns exemplos:
A experiência da APA-RO pode ser considerada um caso particular, uma vez que o processo de construção do conhecimento está estruturado efetivamente dentro de uma organização de agricultores. Trata-se de uma associação que aprimorou de maneira exemplar o seu processo interno de reflexão, de busca por novos conhecimentos, de formação de agricultores agroecológicos, de capacitação pela dinâmica agricultor-agricultor, de comercialização, entre outros aspectos. A forma de estruturação da APA demonstra que a organização buscou fortalecer a sua autonomia e independência, inclusive com relação às entidades de assessoria e serviços de extensão rural, o que parece ser um dos elementos mais importantes dessa experiência.
Em alguns casos, a estratégia de intervenção se pauta na capacitação / formação de grupos informais que passam a assumir uma dinâmica própria, muitas vezes dando origem a uma nova organização. Há vários exemplos de grupos de agricultores-experimentadores que iniciaram sua atuação no âmbito do movimento sindical, com o apoio de organizações de assessoria, mas que atualmente se agregam em novas organizações de caráter cooperativo ou associativo, sem, no entanto, abandonar seus vínculos sindicais. Tendências desse tipo podem ser observadas nas experiências no semiárido do Sasop, do Centro Sabiá, do Centro Agroecológico Tamanduá (CAT) e do Centro de Agricultura Alternativa (CAA), por exemplo.
Nesses casos, fica evidente que houve uma orientação das ações segundo uma lógica comercial ou de mercado, assim como uma busca de uma estrutura organizativa formal. Isso nos leva a refletir sobre o futuro dos trabalhos focados em grupos informais. Tenderiam esses grupos a permanecer na informalidade ou a se consolidar em estruturas formais? Como esse processo de formalização afeta, positiva ou negativamente, a construção do conhecimento agroecológico?
Entretanto, em algumas das experiências, o foco da intervenção permanece sendo os STRs e não as novas organizações de orientação mais comercial, conforme mencionado. Um fato relevante é que tanto nos casos de ações voltadas para cooperativas e/ou associações quanto naqueles em que há uma vinculação mais direta com os STRs, os processos tendem para arranjos institucionais mais complexos, em que a articulação em rede e a construção de parcerias assumem um papel importante. De fato, as experiências estão inseridas em processos complexos, com clara interface entre políticas públicas, redes de articulação e fluxos de recursos e saberes os mais diversos.
Dessa forma, o fortalecimento das organizações não resulta simplesmente dos processos de construção do conhecimento agroecológico e sim de um turbilhão de informações e conhecimentos que circulam intensamente nos contextos social e político das experiências, onde há uma grande diversidade de saberes em jogo: conhecimento sobre as políticas públicas, dos mecanismos de captação de recursos, gestão de projetos, gestão organizativa, comercialização, mercados, entre outros.
Obviamente há uma contribuição específica que o conhecimento agroecológico pode oferecer aos processos de fortalecimento das organizações, especialmente em termos de sustentabilidade dos mesmos. Essa contribuição pode ocorrer ao confrontarmos os princípios da Agroecologia e as dinâmicas de fortalecimento das organizações. Os textos apresentados, contudo, exploram pouco essa reflexão.
As experiências de agricultura urbana também são relevantes nesse debate, uma vez que as organizações de promoção se deparam com uma situação institucional extremamente complexa. Quais são as organizações que devem ser fortalecidas nas regiões periféricas de grandes cidades, onde se desenvolvem práticas agroecológicas tão peculiares? Aqui não fica evidente quais organizações se pretende fortalecer, havendo, portanto, a necessidade de ampliar a reflexão sobre a sustentabilidade dos processos no que diz respeito ao fortalecimento das organizações dos agricultores.
5. Interação entre conhecimentos técnico-acadêmicos e saberes tradicionais
Como já foi abordado em tópicos anteriores, a relação entre saber técnico-acadêmico e conhecimentos tradicionais no âmbito do trabalho desenvolvido entre as entidades de assessoria e grupos de agricultores(as) vem passando por mudanças significativas nos últimos anos. É possível afirmar, no entanto, que ainda há um longo caminho a se percorrer em termos de resgate, sistematização e valorização dos saberes tradicionais.
No passado recente, muitas entidades centraram a sua atuação em propostas tecnológicas predefinidas, ainda que houvesse uma grande abertura de diálogo com os agricultores em torno das mesmas. Entretanto, essa forma de atuação parece decorrer muito mais das limitações metodológicas dos técnicos das entidades do que de uma intenção deliberada de sobrepor o saber técnico ao tradicional. Lentamente, e por meio de inúmeros processos de avaliação e reflexão coletiva, a relação saber técnico-saber tradicional vai passando para uma condição onde prevalece a construção conjunta de alternativas tecnológicas e organizacionais.
Algumas experiências apresentadas demonstram claramente esse processo. Apesar disso, não se pode afirmar que os sistemas de conhecimento estão consolidados e, menos ainda, que eles dispõem de métodos eficazes de resgate e valorização dos saberes tradicionais.
A aproximação da equipe do CAA com outras áreas do conhecimento, a exemplo da antropologia, oferece uma pista do potencial inovador e positivo da relação entre saberes tradicionais e acadêmicos. Talvez os novos caminhos para o avanço das metodologias de intervenção das entidades estejam situados em outros campos do saber e não exclusivamente nas ciências agrárias. Nesse caso, torna-se importante refletir sobre como as organizações têm incorporado profissionais de outras áreas do conhecimento (educação, antropologia, geografia, etc.) em suas equipes. Qual tem sido a contribuição desses profissionais em termos de organização do conhecimento difuso que se produz nas intensas redes de relações e processos sociais em curso nos territórios em que as experiências se desenvolvem.
Na maioria das experiências sistematizadas, observa-se uma fraca interação entre as organizações do campo agroecológico e pesquisadores que se dedicam ao tema a partir de suas instituições acadêmicas ou científicas. Apesar disso, algumas entidades vêm dando passos importantes no sentido de estreitar esses laços numa perspectiva estratégica para o avanço do conhecimento agroecológico.
O CAA-NM, por exemplo, enfatiza a construção e o fortalecimento das redes sociotécnicas em torno da Cooperativa Grande Sertão como uma estratégia fundamental para o avanço dos conhecimentos e das identidades sociais dos agricultores do território norte mineiro. Essas redes têm como princípio o estreitamento da relação entre as organizações dos agricultores e pesquisadores e instituições científicas ou acadêmicas.
Situações similares podem ser identificadas em outros territórios onde as entidades de assessoria e organizações dos agricultores se inserem em processos mais amplos de articulação, negociação de políticas públicas, financiamento de projetos, etc., no âmbito de programas de desenvolvimento local ou territorial.
Instituições de ensino e pesquisa (acadêmicas) podem ter um papel diferenciado quando comparadas às instituições de pesquisa agropecuária. No primeiro caso, há um compromisso mais claro com processos educacionais, por mais formais que sejam. Já no segundo caso, prevalecem processos de geração de tecnologias em ambientes controlados, a exemplo das estações de pesquisa. A relação das instituições de pesquisa com organizações dos agricultores e ONGs é marcada pela tensão entre os conceitos de transferência e/ou validação de tecnologias em oposição à construção coletiva de conhecimentos.
A atuação de pesquisadores sensíveis às demandas das organizações e que se identificam com os princípios da Agroecologia tem sido mais importante do que os vínculos institucionais formais, uma vez que pode desempenhar um papel determinante na busca de relações de complementaridade entre o saber científico e o saber popular. Para finalizar, vale registrar um elemento-chave em todos os artigos reunidos neste livro: eles foram escritos quase sempre por profissionais engajados nas próprias experiências e processos aqui relatados, discutidos e analisados. Nesse sentido, os textos representam um rico exercício de reflexão voltado tanto para o aperfeiçoamento dos processos e métodos internos às organizações quanto para a construção do conhecimento em Agroecologia em sua dimensão social e política mais ampla. São, portanto, uma contribuição e ao mesmo tempo um convite ao debate.
Bibliografia
GT-CCA / ANA. Sistematização de abordagens metodológicas empregadas na promoção
da Agroecologia; Termo de referência. Rio de Janeiro, 2006.
|